Já passou das duas e eu estou completamente bêbada. Você provavelmente já está dormindo, mas decidi lançar um sinal de fumaça depois de todos esses anos. Será que seu número é o mesmo? Nós nos amávamos tanto no colegial... Resolvi te ligar. Ligar não, mandar um sms - pensei. Não vou atrapalhar seu sono angelical. Mandei o sms sem esperar retorno, provavelmente você iria achar que era mensagem da operadora. Mas não. Você respondeu a mensagem no mesmo momento, dizendo que havia tomado um remédio para dormir -então você também sofre de insônia, meu bom rapaz?- e que deveríamos conversar. Concordo, colocar um ponto final no lugar de reticências seria um bom começo. Prometi ligar no dia seguinte para combinarmos algo, um jantar talvez.
Eu ia ligar para a sua casa e sua mãe ia atender e não mais reconhecer minha voz. Eu diria que fui a única menina a frequentar sua casa no colegial, e que fui ao baile com você. Provavelmente ela ia lembrar meu nome, anunciar a todos da casa e fazer uma piada boba. Você iria sugerir que fôssemos para algum lugar, para o Flamengo talvez. Eu lembro como você sempre gostou de ir lá.
Pois é, mas sou covarde. Peguei o telefone dezenas de vezes, mas chamava uma vez e eu desligava. E outra vez você se decepcionou comigo, ficou esperando minha ligação o dia todo e nada. Você provavelmente ouviu e reouviu todas as mensagens da secretária eletrônica. Me desculpe, mas minha covardia é predominante sobre a minha felicidade.


